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A EXPERIÊNCIA DE SE ESCREVER UM DICIONÁRIO DA MODA
Escrevi meu primeiro artigo sobre moda e comportamento em 1985 ao ser convidado pela revista Claudia Moda da Editora Abril. O artigo “Vale tudo no cardápio da moda” tinha um tom premonitório do qual eu muito me orgulho. Afinal, ao lê-lo hoje, passados 22 anos, vejo que minhas antenas estavam bem atentas aos movimentos que viriam a acontecer no universo da moda. Depois desse artigo, publiquei diversos outros em revistas como Desfile Coleções, Elle, Vogue, The Voice, Around e jornais como O Globo e Jornal do Brasil. Semprei gostei de moda e, nos anos 70, já lia a italiana L´UOMO Vogue e a Elle francesa. Mal poderia adivinhar, entretanto, que viria a morar em Paris na casa do próprio Jean-Luc Lagardère*, marido de Bethy Lagardère, dono da Elle e de tantos outros negócios, em 1999.
Aliás, uma linda casa do século XVIII, que foi comprada por Bernard Arnault do grupo francês LVMH que inclui Dior, Louis Vuitton e muitas outras marcas internacionalmente conhecidas.
Mas, como um médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, torna-se estilista de bijuterias e acessórios, depois articulista, mais tarde editor do pioneiríssimo www.marcosabino.com, inaugurado em fevereiro de 2000, e finalmente autor do Dicionário da Moda publicado em 2006? Não sei. Coisas do destino, da vontade e do não-conformismo, acredito.
Após meus cursos e temporada em Paris, voltei ao Rio de Janeiro, mas logo em seguida, decidi me isolar. Fui para Petrópolis onde passei dois anos e, lá, dediquei-me ao máximo a meu site**. Depois de algum tempo, voltei ao design das bijoux e, logo, passei a acumular várias atividades. Em 2003, veio o convite da Editora Campus/Elsevier para escrever um pequeno dicionário de moda. Assinei o contrato, mas nada ainda era certo em termos do número de páginas, se haveria fotos, sobre quem assinaria o projeto gráfico, enfim nada definitivo. Com o desafio e a firme vontade em contar o que sabia, pois já havia vivido vinte e seis anos no circuito da moda, arregacei as mangas e dei início ao trabalho. Completamente só. Inicialmente, fiz um brainstorm, onde tentei listar todos os verbetes que entrariam no livro. Comecei a escrever e o livro foi crescendo. Queria homenagear todos os profissionais da moda que haviam se dedicado ao setor e deixar registrada a sua existência e importância no cenário de moda nacional. Muitos aconselhavam a não falar desse profissional ou de outro. Os mais elitistas achavam, por exemplo, que somente uma meia dúzia de fotógrafos deveria ser mencionada. Eu pensava ao contrário e achava que se alguém tivesse trabalhado, se dedicado e tivesse deixado seu trabalho nas páginas de revistas e jornais, merecia ser lembrado. Gastei uma fortuna em livros, revistas antigas e pesquisas. Sem a ajuda de ninguém. Totalmente sozinho e com muita vontade de acertar. Tive de estudar muito. Ler em francês, inglês, espanhol e tentar trazer a verdade para as páginas do meu livro, já que há disputas e mais disputas sobre a autoria e invenção das coisas entre estrangeiros, principalmente franceses e ingleses. Mas eu queria ser imparcial e buscava a verdade. Sempre. Tarefa difícil num universo repleto de egos desmensurados e num país onde o culto à memória não é uma prerrogativa. À medida que os verbetes iam se delineando, as dúvidas iam aumentando e, a cada dia, eu tinha de me esforçar mais. Comecei a notar que muitas pessoas mentiam e não queriam a verdade dos fatos. Coisas simples como não revelar a própria idade até profissionais que, por desafetos, rompimentos e desilusões, eliminavam ex-sócios, parentes e até mesmo, esposas e maridos. Comecei a enlouquecer. A minha proposta era com a verdade. Já bastava ter de ler e ouvir que a cena de moda nacional havia começado com as fatídicas fashion weeks dos anos 90. E todo o trabalho que foi feito antes? Por que renegá-los? Havia semanas de moda sim e, no início dos anos 80, éramos obrigados a apresentar prévias de coleções de inverno já em novembro. As coleções seriam apresentadas em janeiro e entrariam nas lojas em março, mas edições profissionais como o Jornal da Claudia Moda que circulavam durante a Fenit em janeiro, precisavam de material para suas páginas e nós, estilistas, enviávamos croquis e peças-piloto. Tudo para não perder a oportunidade de ter o nome em evidência num período com boa divulgação. Em janeiro, ainda, apresentávamos nossas coleções em nossos showrooms e aguardávamos as vendas para os lojistas de atacado. Logo depois, revistas como Moda Brasil, Desfile, Vogue, Claudia Moda e Interview já recolhiam nossas peças para serem fotografadas nos editoriais das novas estações. Ao ler as declarações dos organizadores das semanas de moda atuais, me perguntava: Por que a Regina Guerreiro não diz o que acontecia? Por que Costanza Pascolato não declara como ela era recebida no Rio de Janeiro na época desses lançamentos que não tinham o nome de fashion week, mas que eram encarados com a mesma seriedade profissional? Até hoje, tenho essa dúvida. Por que o silêncio? Afinal, as editoras de moda não apresentavam nas páginas de moda de suas revistas parafusos ou móveis de madeira. Elas comentavam e apresentavam fotografias de roupas e de acessórios! Bradavam sobre a nova tendência e mostravam que entendiam do riscado. Os tempos eram diferentes, o mundo era outro, mas os seres humanos continuam os mesmos. Com seus egos, vontades, força e dinamismo. Todas aquelas pessoas que participavam daquela imensa engrenagem de moda eram profissionais. A maioria autodidata, mas tentando acertar, ganhar notoriedade, conquistar, seduzir, vender e vencer. Igualzinho aos que estão neste meio em pleno século XXI. O que mudou foi o tamanho, a sofisticação tecnológica, o aparato e o aparecimento de escolas, cursos e novas profissões. Produtora de moda não era chamada stylist. Encarregado do som não era conhecido por DJ. E, para falar a verdade, havia muito mais revistas dirigidas ao profissional da moda do que hoje em dia. No início da minha trajetória profissional, eu ainda conheci o importante Noticiário da Moda da Editora Abril, o Moda & Mercado, o Moda & Serviço, Etiqueta, Claudia Moda, Desfile Coleções, Edição e tantos outras publicações. E, no Dicionário da Moda, eu queria homenagear todas as pessoas que haviam trabalhado e participado da construção do cenário de moda do país. Só quem viveu os terríveis planos econômicos, uma epidemia de Aids e tantas outras adversidades dos anos 80, sabe do que estou falando. Considero todos estes que se esforçaram e construíram suas marcas e seus negócios verdadeiros heróis da resistência. Porque não foi fácil. Não havia telefonia celular para tantos patrocínios. Não havia interesse nesse segmento pelas grandes empresas. As pessoas que queriam se dedicar à moda tinham de ser perseverantes e insistentes. Como já salientei, o meio da moda é repleto de egos desmensurados e isso sempre foi assim. Na Medicina, também havia. Como existe na decoração, na Odontologia, na Advocacia… Não é uma boa qualidade, mas é uma característica humana previsível. Pois bem, ao se escrever um Dicionário da Moda, onde nomes são perfilados, pode-se imaginar exatamente o que possa acontecer. Uma jornalista, que contatei no início dos trabalhos, queria saber qual seria o tamanho de seu verbete, pois, afinal, ela era uma das mais antigas na moda e já bastava ter tido iniciativas e trabalhos seus atribuídos e publicados na biografia de outra pessoa. Concordei, disse o número de linhas que haviam recebido duas jornalistas de igual importância e ela acedeu. Disse: “Mãos à obra!”. Após algum tempo, recebo um e-mail noticiando sua morte e convidando para a missa de sétimo dia. Fiquei estupefato, pois quando ela conversou comigo, ela já sabia que não duraria muito tempo, mas mesmo assim, importava-se muito com aquele número de linhas. Escrever um dicionário não é fácil e qual não foi a minha surpresa ao ler o e-mail de um estilista mimado que não se sentia satisfeito com suas 29 linhas! Mas as dificuldades não me desanimaram e, leonino, obsessivo e perfeccionista que sou, não esmoreci. Tive depressões, tendinites, cansaço extenuante, discussões com os editores, frustrações, mas cheguei lá. A minha premissa era a imparcialidade e a narrativa da verdade dos fatos, e acho que isso conquistei. Aprendi que é complicado escrever sobre os outros, que é difícil resgatar com apuro técnico a descrição de uma roupa ou acessório, compreender a indumentária no passado e que é impossível acreditar na primeira informação lida ou conseguida. Dos meus mais de 800 volumes sobre moda colecionados desde os anos 80, tive de descartar as informações de inúmeros deles. Passei a exigir títulos em relação aos autores e, assim mesmo, olhe lá, pois há sempre divergências e interpretações diferentes. Fontes na Internet? Extremo cuidado, eu advertiria ao mais incauto ou ao que não seja um mineiro tão desconfiado como eu. É sempre necessário checar. Ou tentar, porque como já disse, as próprias pessoas mudam suas histórias, inventam novas trajetórias e, em minha opinião, enganam a si próprias e o que é pior, à memória do Brasil. Mas o trabalho foi irresistível, principalmente quando, no decorrer dos meses, constatamos que o número de páginas foi aumentando, que os arquivos no computador foram ficando repletos e que a possibilidade da escolha de fotos e ilustrações, apesar de instigante, poderia levar à loucura. Conseguir autorizações para fotos, para publicação de capas de revistas e páginas de jornal? É um trabalho extenuante e que pode ensandecer qualquer um. Acha-se o fotógrafo e não se acha a modelo. O modelo quer cobrar cachê para ter sua foto publicada no livro. É, por incrível que possa parecer, esse fato aconteceu. Todos acham que o autor irá ganhar rios de dinheiro e, alguns limitados não conseguem enxergar que sua imagem estará eternizada num trabalho sério e que é uma deferência para a pessoa estar ali. Trabalho quase encerrado, o orçamento da editora vetou a excessiva quantidade de páginas. Com o coração na mão, tive de aceitar a retirada de quase cem páginas do livro. Páginas repletas de palavras escolhidas, pesquisadas, amadas. Não houve alternativa. E muita gente reclamou de não estar citada no livro. Muita gente sem tanta importância na moda, mas que se acha super importante e não admitiu a suposta falha técnica do autor. Outros tantos que poderiam estar, mas que pelas razões que já expus, acabaram saindo. Talvez apareçam em outra edição. Outros realmente só têm ego e não mereceram estar ali. Outros estão citados em verbetes relacionados às suas profissões ou aos seus veículos de trabalho, mas isso não foi convincente para eles e muitos, por falta de percepção e raciocínio, nem tomaram conhecimento disso. Afinal, a maior parte queria ser verbete separado. Impossível! O trabalho de um autor como o do DICIONÁRIO DA MODA foi um trabalho de formiguinha, de arqueólogo, de monge… Um trabalho solitário e uma tarefa quixotesca à qual me propus realizar pelo fato de ter atração por este universo e pelo fato de ter sido uma testemunha ocular dessa História, a História da Moda no Brasil. Um trabalho que pode ter tido algumas falhas, mas que foi exaustivo, dispendioso financeiramente para mim, mas um exercício de paciência, fé, busca e compreensão.
* Jean-Luc Lagardère (1928-2003)
** No final dos anos 90, usava-se muito a palavra homepage. Depois as palavras site e portal se tornaram mais usadas. Em minha opinião, o marcosabino.com continua sendo um site e não um blog, apesar de ter servido para muitos como inspiração. Talvez tenha a linguagem dos blogs atuais, pois sempre foi totalmente autoral, mas não tem a construção e formato de um blog.
PS: Este artigo foi escrito antes deste BLOG (marcosabino.com/blog) ser inaugurado e foi publicado na revista DObra[s] em 2008.
O texto publicado aqui é o original, escrito em março de 2008, sem edição.
Atualmente, tanto o SITE http://www.marcosabino.com quanto este BLOG, que você lê diariamente, estão on line.
Posted by marco sabino
Posted in: Sem categoria
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março 2009
“A EXPERIÊNCIA DE SE ESCREVER O DICIONÁRIO DA MODA”
Escrevi meu primeiro artigo sobre moda e comportamento em 1985 ao ser convidado pela revista Claudia Moda da Editora Abril. O artigo “Vale tudo no cardápio da moda” tinha um tom premonitório do qual eu muito me orgulho. Afinal, ao lê-lo hoje, passados 22 anos, vejo que minhas antenas estavam bem atentas aos movimentos que viriam a acontecer no universo da moda. Depois desse artigo, publiquei diversos outros em revistas como Desfile Coleções, Elle, Vogue, The Voice, Around e jornais como O Globo e Jornal do Brasil. Semprei gostei de moda e, nos anos 70, já lia a italiana L´UOMO Vogue e a Elle francesa. Mal poderia adivinhar, entretanto, que viria a morar em Paris na casa do próprio Jean-Luc Lagardère*, marido de Bethy Lagardère, dono da Elle e de tantos outros negócios, em 1999.
Aliás, uma linda casa do século XVIII, que foi comprada por Bernard Arnault do grupo francês LVMH que inclui Dior, Louis Vuitton e muitas outras marcas internacionalmente conhecidas.
Mas, como um médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, torna-se estilista de bijuterias e acessórios, depois articulista, mais tarde editor do pioneiríssimo www.marcosabino.com, inaugurado em fevereiro de 2000, e finalmente autor do Dicionário da Moda publicado em 2006? Não sei. Coisas do destino, da vontade e do não-conformismo, acredito.
Após meus cursos e temporada em Paris, voltei ao Rio de Janeiro, mas logo em seguida, decidi me isolar. Fui para Petrópolis onde passei dois anos e, lá, dediquei-me ao máximo a meu site**. Depois de algum tempo, voltei ao design das bijoux e, logo, passei a acumular várias atividades. Em 2003, veio o convite da Editora Campus/Elsevier para escrever um pequeno dicionário de moda. Assinei o contrato, mas nada ainda era certo em termos do número de páginas, se haveria fotos, sobre quem assinaria o projeto gráfico, enfim nada definitivo. Com o desafio e a firme vontade em contar o que sabia, pois já havia vivido vinte e seis anos no circuito da moda, arregacei as mangas e dei início ao trabalho. Completamente só. Inicialmente, fiz um brainstorm, onde tentei listar todos os verbetes que entrariam no livro. Comecei a escrever e o livro foi crescendo. Queria homenagear todos os profissionais da moda que haviam se dedicado ao setor e deixar registrada a sua existência e importância no cenário de moda nacional. Muitos aconselhavam a não falar desse profissional ou de outro. Os mais elitistas achavam, por exemplo, que somente uma meia dúzia de fotógrafos deveria ser mencionada. Eu pensava ao contrário e achava que se alguém tivesse trabalhado, se dedicado e tivesse deixado seu trabalho nas páginas de revistas e jornais, merecia ser lembrado. Gastei uma fortuna em livros, revistas antigas e pesquisas. Sem a ajuda de ninguém. Totalmente sozinho e com muita vontade de acertar. Tive de estudar muito. Ler em francês, inglês, espanhol e tentar trazer a verdade para as páginas do meu livro, já que há disputas e mais disputas sobre a autoria e invenção das coisas entre estrangeiros, principalmente franceses e ingleses. Mas eu queria ser imparcial e buscava a verdade. Sempre. Tarefa difícil num universo repleto de egos desmensurados e num país onde o culto à memória não é uma prerrogativa. À medida que os verbetes iam se delineando, as dúvidas iam aumentando e, a cada dia, eu tinha de me esforçar mais. Comecei a notar que muitas pessoas mentiam e não queriam a verdade dos fatos. Coisas simples como não revelar a própria idade até profissionais que, por desafetos, rompimentos e desilusões, eliminavam ex-sócios, parentes e até mesmo, esposas e maridos. Comecei a enlouquecer. A minha proposta era com a verdade. Já bastava ter de ler e ouvir que a cena de moda nacional havia começado com as fatídicas fashion weeks dos anos 90. E todo o trabalho que foi feito antes? Por que renegá-los? Havia semanas de moda sim e, no início dos anos 80, éramos obrigados a apresentar prévias de coleções de inverno já em novembro. As coleções seriam apresentadas em janeiro e entrariam nas lojas em março, mas edições profissionais como o Jornal da Claudia Moda que circulavam durante a Fenit em janeiro, precisavam de material para suas páginas e nós, estilistas, enviávamos croquis e peças-piloto. Tudo para não perder a oportunidade de ter o nome em evidência num período com boa divulgação. Em janeiro, ainda, apresentávamos nossas coleções em nossos showrooms e aguardávamos as vendas para os lojistas de atacado. Logo depois, revistas como Moda Brasil, Desfile, Vogue, Claudia Moda e Interview já recolhiam nossas peças para serem fotografadas nos editoriais das novas estações. Ao ler as declarações dos organizadores das semanas de moda atuais, me perguntava: Por que a Regina Guerreiro não diz o que acontecia? Por que Costanza Pascolato não declara como ela era recebida no Rio de Janeiro na época desses lançamentos que não tinham o nome de fashion week, mas que eram encarados com a mesma seriedade profissional? Até hoje, tenho essa dúvida. Por que o silêncio? Afinal, as editoras de moda não apresentavam nas páginas de moda de suas revistas parafusos ou móveis de madeira. Elas comentavam e apresentavam fotografias de roupas e de acessórios! Bradavam sobre a nova tendência e mostravam que entendiam do riscado. Os tempos eram diferentes, o mundo era outro, mas os seres humanos continuam os mesmos. Com seus egos, vontades, força e dinamismo. Todas aquelas pessoas que participavam daquela imensa engrenagem de moda eram profissionais. A maioria autodidata, mas tentando acertar, ganhar notoriedade, conquistar, seduzir, vender e vencer. Igualzinho aos que estão neste meio em pleno século XXI. O que mudou foi o tamanho, a sofisticação tecnológica, o aparato e o aparecimento de escolas, cursos e novas profissões. Produtora de moda não era chamada stylist. Encarregado do som não era conhecido por DJ. E, para falar a verdade, havia muito mais revistas dirigidas ao profissional da moda do que hoje em dia. No início da minha trajetória profissional, eu ainda conheci o importante Noticiário da Moda da Editora Abril, o Moda & Mercado, o Moda & Serviço, Etiqueta, Claudia Moda, Desfile Coleções, Edição e tantos outras publicações. E, no Dicionário da Moda, eu queria homenagear todas as pessoas que haviam trabalhado e participado da construção do cenário de moda do país. Só quem viveu os terríveis planos econômicos, uma epidemia de Aids e tantas outras adversidades dos anos 80, sabe do que estou falando. Considero todos estes que se esforçaram e construíram suas marcas e seus negócios verdadeiros heróis da resistência. Porque não foi fácil. Não havia telefonia celular para tantos patrocínios. Não havia interesse nesse segmento pelas grandes empresas. As pessoas que queriam se dedicar à moda tinham de ser perseverantes e insistentes. Como já salientei, o meio da moda é repleto de egos desmensurados e isso sempre foi assim. Na Medicina, também havia. Como existe na decoração, na Odontologia, na Advocacia… Não é uma boa qualidade, mas é uma característica humana previsível. Pois bem, ao se escrever um Dicionário da Moda, onde nomes são perfilados, pode-se imaginar exatamente o que possa acontecer. Uma jornalista, que contatei no início dos trabalhos, queria saber qual seria o tamanho de seu verbete, pois, afinal, ela era uma das mais antigas na moda e já bastava ter tido iniciativas e trabalhos seus atribuídos e publicados na biografia de outra pessoa. Concordei, disse o número de linhas que haviam recebido duas jornalistas de igual importância e ela acedeu. Disse: “Mãos à obra!”. Após algum tempo, recebo um e-mail noticiando sua morte e convidando para a missa de sétimo dia. Fiquei estupefato, pois quando ela conversou comigo, ela já sabia que não duraria muito tempo, mas mesmo assim, importava-se muito com aquele número de linhas. Escrever um dicionário não é fácil e qual não foi a minha surpresa ao ler o e-mail de um estilista mimado que não se sentia satisfeito com suas 29 linhas! Mas as dificuldades não me desanimaram e, leonino, obsessivo e perfeccionista que sou, não esmoreci. Tive depressões, tendinites, cansaço extenuante, discussões com os editores, frustrações, mas cheguei lá. A minha premissa era a imparcialidade e a narrativa da verdade dos fatos, e acho que isso conquistei. Aprendi que é complicado escrever sobre os outros, que é difícil resgatar com apuro técnico a descrição de uma roupa ou acessório, compreender a indumentária no passado e que é impossível acreditar na primeira informação lida ou conseguida. Dos meus mais de 800 volumes sobre moda colecionados desde os anos 80, tive de descartar as informações de inúmeros deles. Passei a exigir títulos em relação aos autores e, assim mesmo, olhe lá, pois há sempre divergências e interpretações diferentes. Fontes na Internet? Extremo cuidado, eu advertiria ao mais incauto ou ao que não seja um mineiro tão desconfiado como eu. É sempre necessário checar. Ou tentar, porque como já disse, as próprias pessoas mudam suas histórias, inventam novas trajetórias e, em minha opinião, enganam a si próprias e o que é pior, à memória do Brasil. Mas o trabalho foi irresistível, principalmente quando, no decorrer dos meses, constatamos que o número de páginas foi aumentando, que os arquivos no computador foram ficando repletos e que a possibilidade da escolha de fotos e ilustrações, apesar de instigante, poderia levar à loucura. Conseguir autorizações para fotos, para publicação de capas de revistas e páginas de jornal? É um trabalho extenuante e que pode ensandecer qualquer um. Acha-se o fotógrafo e não se acha a modelo. O modelo quer cobrar cachê para ter sua foto publicada no livro. É, por incrível que possa parecer, esse fato aconteceu. Todos acham que o autor irá ganhar rios de dinheiro e, alguns limitados não conseguem enxergar que sua imagem estará eternizada num trabalho sério e que é uma deferência para a pessoa estar ali. Trabalho quase encerrado, o orçamento da editora vetou a excessiva quantidade de páginas. Com o coração na mão, tive de aceitar a retirada de quase cem páginas do livro. Páginas repletas de palavras escolhidas, pesquisadas, amadas. Não houve alternativa. E muita gente reclamou de não estar citada no livro. Muita gente sem tanta importância na moda, mas que se acha super importante e não admitiu a suposta falha técnica do autor. Outros tantos que poderiam estar, mas que pelas razões que já expus, acabaram saindo. Talvez apareçam em outra edição. Outros realmente só têm ego e não mereceram estar ali. Outros estão citados em verbetes relacionados às suas profissões ou aos seus veículos de trabalho, mas isso não foi convincente para eles e muitos, por falta de percepção e raciocínio, nem tomaram conhecimento disso. Afinal, a maior parte queria ser verbete separado. Impossível! O trabalho de um autor como o do DICIONÁRIO DA MODA foi um trabalho de formiguinha, de arqueólogo, de monge… Um trabalho solitário e uma tarefa quixotesca à qual me propus realizar pelo fato de ter atração por este universo e pelo fato de ter sido uma testemunha ocular dessa História, a História da Moda no Brasil. Um trabalho que pode ter tido algumas falhas, mas que foi exaustivo, dispendioso financeiramente para mim, mas um exercício de paciência, fé, busca e compreensão.
* Jean-Luc Lagardère (1928-2003)
** No final dos anos 90, usava-se muito a palavra homepage. Depois as palavras site e portal se tornaram mais usadas. Em minha opinião, o marcosabino.com continua sendo um site e não um blog, apesar de ter servido para muitos como inspiração. Talvez tenha a linguagem dos blogs atuais, pois sempre foi totalmente autoral, mas não tem a construção e formato de um blog.
PS: Este artigo foi escrito antes deste BLOG (marcosabino.com/blog) ser inaugurado e foi publicado na revista DObra[s] este ano.
O texto publicado aqui é o original, escrito em março de 2008, sem edição.
Atualmente, tanto o SITE http://www.marcosabino.com quanto este BLOG, que você diariamente, estão on line.
Posted by marco sabino
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novembro 2008

