Há
mais de um ano, venho acompanhando os editoriais e as publicidades que "servem"
sexo, modelos e roupas como prato principal no cardápio das mais
importantes revistas de moda internacionais.
Trata-se de um fenômeno interessantíssimo, pois o campo sexual
é super vasto e, sem dúvida alguma, tem se mostrado uma fonte
inesgotável de inspiração para estilistas, diretores
de criação e fotógrafos.
Calvin
Klein, talvez, tenha dado a largada no sexo "comercial"
quando colocou todos aqueles anúncios e out-doors mostrando
jovens lindos com abdomes sarados, vestindo suas cuecas CK.
Mr Klein, a partir dali, abusou do clima homoerótico em suas
publicidades e foi, até mesmo, repreendido pelo sistema politicamente
correto e puritano americano, ao lançar sua linha de "underwear"
infantil, que viu na inocente campanha, uma incitação
à pedofilia. Um certo exagero, diga-se de passagem, pois a
malícia está na cabeça de quem vê e não
num casal de criancinhas com cuecas, não é mesmo?
O
texano Tom Ford foi outro ousado pioneiro que investiu no "sex-system"
da moda e abusou das campanhas onde climas eróticos, tanto
homo quanto hetero, estiveram sempre presentes em lindas fotos assinadas
por excelentes fotógrafos.
Depois disso, já passamos pelo lesbian-chic, pelo onanismo
fashion, pela zoofilia de Ungaro, por dezenas de situações
homoeróticas, pelo visual sado-masô moderno e por toda
a sorte de olhares lânguidos e posições sensuais.
Sem
dúvida alguma, muitos rezam no altar do consagrado Helmut Newton
que vem gastando rolos e mais rolos de filmes, há décadas,
para obter suas fotos carregadas de erotismo fashion.
Steven Meisel poderia ter assinado Steven "Newton" Meisel
nas fotos da última campanha Versace, onde protagonizaram muitas
cintas-liga, meias pretas e lençóis de cetim. Até
mesmo as posições das modelos nas camas em 2001 são,
praticamente, idênticas às das modelos clicadas por Newton
na década de 70. Quase uma xerox, pode-se dizer...
No
ano passado, a VOGUE Paris serviu sushi no corpo da modelo que representava
cenas de submissão oriental a um samurai dominador. A vítima
fashion, uma coisa meio Amélia, meio gueisha, chegou a ganhar
o conteúdo líquido de um copo bem no meio da cara, mas
nem por isso, deixou de exibir, totalmente subjugada, seu longo casaco
vermelhésimo da Louis Vuitton .
Vermelhas de raiva devem ter ficado as "chiennes de garde",
aquele grupo de feministas francesas que não deixa passar nada
que julgue ofender as mulheres.
Aliás, inglesas mais radicais protestaram contra a propaganda
singela do perfume Paris de YSL e contra a nudez marmórea de
Sophie Dahl na publicidade do Opium, um outro perfume da griffe.
Em relação à nudez da roliça Sophie, acho
que houve um certo exagero.
A
imagem da modelo totalmente nua, usando apenas sandálias de
salto, jóias e um bom batom carmim nos lábios é
muita digna. Além do mais, a nudez feminina está presente
em telas e afrescos de grandes artistas de outros séculos no
Vaticano e em muitas igrejas. Eu realmente não consigo ver
problemas com o corpo de alabastro de Sophie. Mlle Dahl é sexy,
mas não é vulgar. Quanto à outra publicidade,
a moça exibe um par de seios ao lado de dois rapazes que, pelo
seu visual e olhares, não oferecem perigo algum à donzela.
Muito pelo contrário, se é que vocês me entendem...
Mas as feministas não gostaram e atacaram o texano Tom Ford,
atual detentor da marca. Até mesmo o mestre Yves repudiou a
campanha, esquecendo-se totalmente que ele mesmo posou completamente
nu para as lentes de Jeanloup Sieff, causando bastante polêmica
nos anos 70.
A
revista francesa L´Officiel apresentou no ano passado um editorial
com uma espécie de foto-novela fashion e um enredo onde aparecia
um triângulo amoroso de duas irmãs e um namorado, cenas
de traição e arrebatamento sexual na grama de um jardim
burguês em Long Island.
Uau! Não é interessante observar a tal tendência?
A Sisley não ficou atrás e colocou um casal se esbaldando
numa das muitas posições do Kama-Sutra. O resultado
apareceu em fotos com muita epiderme à vista, saias levantadas,
coxas femininas cheias de fiapos de grama e uma forte mão masculina
segurando os quadris da moça. A campanha foi assinada por Terry
Richardson, um fotógrafo super disputado e, sem dúvida
alguma, um excelente exemplo de um típico tarado fashionista.
A
campanha versa sobre o paraíso com direito a um Adão,
três Evas, muitos pistilos e flores tropicais mais do que fálicas.
E quem não se lembra das fotos da campanha DIOR do ano passado
com as duas modelos se agarrando? Para dizer a verdade, o clima lesbian-chic
tem sido um dos preferidos do pessoal da indústria da moda,
há décadas, tendo sido adotado por griffes como Bottega
Veneta, Dior, Gucci e muitas e muitas outras mais.
Na
última campanha, a Dior atacou de graxa e modelos à
beira de um orgasmo em fotos belíssimas, diga-se de passagem.A
Louis Vuitton ,em uma de suas campanhas de sapatos , colocou duas
modelos, onde uma delas exercia o papel de dominadora, subjugando
totalmente a outra que posava de quatro e era obrigada a reverenciar
os pés calçados com legítimos LV de sua "mestra".
Emanuel
Ungaro é outro que pratica a tendência. O estilista,
rotulado de clássico, adora cores, babados românticos
e estampas florais. Mas Monsieur Ungaro sempre pareceu apreciar uma
pimenta com uma grande carga erótica no molho de suas campanhas
fashion. Em décadas passadas, o estilista já criou muita
polêmica com suas fotos de publicidade, sempre com um componente
erótico.
Em 1983, teve censurada sua campanha onde a modelo com a saia levantada
tinha pousada sobre uma das coxas, em posição estratégica,
uma girafa de plástico bem fálica. Mais recentemente,
gerou mais controvérsia com a publicidade, em intenso clima
sado-masô, onde a loura angelical Kirsten Owen apareceu em fotos
clicadas por Mario Sorrenti , dividindo a cena com um grande cão
e sua "cagoule" de couro negro super tacheada.
Mas,
segundo comentários na press internacional, "fashion-victims"
mais empolgadas resolveram seguir a direção apontada
e andaram passeando pela avenue Montaigne com seus cães no
mesmo clima de "A Bela e a Fera Sado-Masô". Em sua
última campanha, o estilista apresentou sua coleção
de vestidos florais ingênuos em fotos com modelos que se mostravam
adeptas do prazer solitário. Mais confusão com o público...
A
americana "Detour" colocou, recentemente, fotos de um
quase peladão Matthew McConaughey em suas páginas.
Quase,
não fosse a cueca negra transparente cheia de logos da Gucci. Em
compensação, a revista não deixou seus leitores sedentos
da nova tendência na mão. Além do abdome definido de
Mr McConaughey, a revista sapecou uma dupla de modelos na matéria
"New Calvinists", onde sempre vestidos com peças CK e num
clima totalmente homoerótico, os rapazes trocavam carinhos e puxavam
os cós de suas calças para examinar suas "ferramentas
de trabalho".
A revista exibiu, ainda, a matéria "Backseat drivers",
onde um modelo negro e uma modelo branca exibiam o contorcionismo necessário
para uma performance sexual no banco traseiro de um automóvel. E
não parou por aí, pois, logo adiante, outro editorial de moda
intitulado "Private Game", duas modelos e cinco rapazes mostravam
a que ponto pode levar um inocente jogo de cartas.
Nem mesmo a GQ portuguesa escapou à tendência e, em um de seus
últimos números, colocou em pauta a fantasia sexual de um
executivo em seu ambiente de trabalho, num clima super "hot-sex fashion",
com direito a muitas pernas femininas para o ar e calças masculinas
abaixadas.
Indelicado seria não mencionar Mr Tom Ford mais uma vez, pois
o belo texano parece continuar adorando climas eróticos em
suas campanhas de publicidade. Ou, afinal, quem poderia se esquecer
da série naquela paisagem árida, onde o alemão
Axl Hermann mostrava uma ereção por baixo da calça
bege ao lado da brasileira Caroline Ribeiro?
Ele mesmo, Tom Ford, posou para a campanha da vodka Absolut com a
garrafa levemente pousada sobre seu colo e com um olhar safado para
a câmera.
Sexo! Sexo! Sexo! Todo mundo só pensa "naquilo"!
Sábia Zezé Macedo, não é mesmo?
O
engraçado é que quando comentei com William Stoddart,
o diretor de criação da francesíssima Madame
Figaro, sobre a iminência de matérias com porno-stars
e universos à la Tom of Finland, ele disparou: Pois já
fizeram! E eu recebi a "Citizen K", onde rapazes fortões
exibiam roupas, couros e músculos, bem no estilo do dinarmaquês
Mr Finland, em fotos clicadas pelo incensado Jean-Baptiste Mondino.
Abro um parêntese para lembrar que o célebre ator de
filmes gays pornôs, Jeff Stryker, desfilou, há tempos
atrás, ao lado da emergentésima Ivana Trump na passarela
de Thierry Mugler, outro adepto de fetiches e climas eróticos
na moda.
A
VOGUE Hommes International, também, entrou na onda e apresentou
os meigos porno-stars da Bel Ami, especializada em filmes homoeróticos,
em uma de suas matérias e a holandesa DUTCH acaba de exibir,
em suas páginas, a completa nudez de Kate Moss, de Erin O'Connor
e a semi-nudez da brasileira Ana Claudia Michels. As duas primeiras
tops apareceram peladinhas, peladinhas em fotos preto e branco da
revista. Já Ana Claudia disfarçou um pouco com o auxílio
de uma capa. Mas o clima até que não é tão
"hard" como as diversas matérias anteriormente publicadas
pela modernosa DUTCH. Muitas delas seguiam o estilo realista de Roy
Stuart, que tem seus livros editados pela Taschen , e é um
devoto do erotismo.
No
cinema, o filme "Wide eyes shut" com Nicole Kidman e Tom Cruise
mostrou cenas de uma seita sexual com mulheres andando como desfilam as
melhores top-models do mundo da moda. A música, as máscaras,
a beleza dos corpos, os salões da mansão e o erotismo reinante
são a tradução de parte deste mix pornô-fashion.
Mas, afinal, sexo faz vender?
Pelo visto sim e muito! Ou os braceletes-algema da Gucci não teriam
esgotado tão rapidamente e o poderoso Bernard Arnault da LVMH não
teria dado carta branca aos ingleses John Galliano e Alexander McQueen que
andaram se esbaldando, soltando todas suas feras e fetiches, em suas últimas
coleções para a Dior e Givenchy.
Alexander McQueen deixou o grupo recentemente e passou para o lado do texano
Ford. Resta esperar para ver o que vai sair do forno do inglês em
sua próxima coleção. Galliano, por sua vez, fêz
metade do planeta encarar uma meia arrastão e sonhar com zíperes
e couros nas sandálias e nas roupas.
Jean
Paul Gaultier é outro mestre no assunto e , numa de suas últimas
coleções "couture", deixou as calcinhas das
modelos propositalmente à mostra. O mix de decadência,
estilo e atitude chic em sua passarela é prá lá
de conhecido. Samuele, um de seus modelos fetiche, é extremamente
sensual e, com seus lábios carnudos, está sempre posando
para as campanhas de publicidade do enfant-terrible da moda francesa.
Suas campanhas de perfumes já mostraram o "tête
à tête" de marinheiros franceses com bons bíceps
e , mais recentemente, Shirley Mallmann exibindo um "corset"
para o perfume do frasco-espartilho. Não fosse o espartilho
uma tendência e um dos mais fortes representantes do fetiche...Elsa
Schiaparelli que o diga, pois a idéia do frasco-espartilho
pertence à ela. A estilista do pink lançou o seu perfume
na década de 30...
Mathias
Vriens é um fotógrafo que adora impregnar os editoriais
de importantes revistas de moda com suas fotos ambíguas e carregadas
de erotismo quase explícito. Homens, num clima do filme "Os
deuses malditos" e vestidos com lingerie e "fourrures"
Prada costumam aparecer em suas matérias que são bem
apreciadas pelo quartel-general da moda internacional.
É necessário dizer que, acima da linha do Equador, tudo
rola num clima de "décadence avec élégance",
bem diferente de nossas popozudas, cachorras e preparadas do funk
que, por sua vez, confirmam a tendência atual do sexo na moda
e no entretenimento.
Por aqui, não temos Pamela Anderson, mas temos Monique Evans
e Daniele Winits. Não temos os modelos do Mathias, mas já
tivemos Murilo Benício em fotos com a expressão do rosto
bem no clima orgásmico do modelo clicado pelo fotógrafo
europeu para a VOGUE francesa.
Não
temos o homoerotismo fashion, mas já tivemos o beijo na boca rasgado
dos dois rapazes na publicidade da Du Loren. E o clima travestido dos
alemães da Gestapo no filme "Os Deuses Malditos" de Luchino
Visconti já apareceu em inúmeras matérias de revistas
de moda moderninhas. Já vimos páginas e mais páginas
desses zines vanguardistas, onde rapazolas exibem um visual de drag-queens
pós-modernas em total clima de androginia decadente.
Tivemos, também, Carlos Casagrande e seus imensos olhos verdes
contracenando com a modelo Letícia Gesswein em matéria super
sexy de lingerie publicada na revista NOVA em 1996.
Zulu, também, apareceu em fotos da mesma revista clicadas por Mauricio
Nahas em 1994, exibindo seu belo corpo em muitas páginas. O inusitado
da matéria ficou por conta da foto, onde a cabeça de Zulu
desaparece por baixo do vestido branco da modelo. Um certo exagero editorial,
eu diria...
Impossível esquecer de Trípoli, o fotógrafo brasileiro
que explorou o erotismo com fotos para a campanha dos jeans POOL na década
de 80. Modelos vestidos com as calças índigo da marca, muitos
músculos à vista e bastante suor estiveram presentes em
muitas páginas das revistas de moda nacionais.
E é sempre bom lembrar o sucesso da exposição na
Fundação Cartier em Paris com as fotos dos rapazes de Ipanema
de Alair Gomes clicados na década de 70 e só agora colocadas
em evidência internacional.
A sensualidade por aqui é mais explícita, muitas vezes chegando
às raias do mau gosto, mas a essência das vontades, tanto
no hemisfério Norte quanto no Sul, parece girar sempre em torno
da fatídica frase da comediante da Escolinha do Professor Raimundo.
Aliás, tô com você e não abro Zezé! Eles
realmente só pensam naquilo...
PS:
A revista FLAUNT de setembro exibe um editorial, praticamente pornô,
com a moda DIOR por Hedi Slimane chamado SEX TOURISM e a SISLEY, em
uma de suas últimas publicidades,
colocou
a modelo montada num rapaz nu, selado como um cavalo. Que tal?